O hormônio da juventude

Atrasar o envelhecimento do organismo integra a lista das prioridades da humanidade. Na semana passada, cientistas deram mais um passo para a conquista desse sonho. Em um artigo publicado no The New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo, um grupo de pesquisadores anunciou que, pela primeira vez, provou-se em humanos que o uso de um hormônio reverte o envelhecimento celular. A conclusão abre uma nova perspectiva para a prevenção e o tratamento de doenças resultantes do desgaste do corpo ocorrido com o passar dos anos, como o câncer, o infarto e o Alzheimer. As pessoas poderão ser beneficiadas com os resultados dessas pesquisas em quatro anos.

O feito marca um divisor de águas na história pela busca de soluções que atenuem os prejuízos do envelhecimento. É certo que o processo é complexo, mas há tempos a ciência sabia que uma de suas peças-chave são os telômeros. Trata-se de estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos (onde está o DNA) e que têm como função proteger a integridade dos genes durante a multiplicação das células.  O problema é que, com o avanço da idade, eles ficam cada vez mais curtos e, as células, mais desprotegidas. Em último grau, o fenômeno leva à morte celular. Portanto, estava claro que evitar seu encurtamento era uma estratégia a ser seguida. Para isso, os cientistas usaram a testosterona, hormônio responsável por características masculinas, sobre o qual havia evidências de que atuaria contra o encurtamento. Ela age sobre a telomerase, enzima reparadora dos telômeros.

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O trabalho teve a participação dos médicos brasileiros Philip Scheinberg e Rodrigo Calado durante os anos em que passaram no Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, uma das principais instituições fomentadoras de estudos no mundo e onde a pesquisa foi conduzida. Scheinberg, um dos líderes do projeto, hoje é coordenador do serviço de hematologia do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, em São Paulo, e Calado dá aula na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto.

Foram recrutados 27 pacientes. Eles tinham alterações genéticas que provocam um encurtamento acelerado dos telômeros, problema que eleva a incidência de fibrose pulmonar, cirrose hepática e anemia aplástica (a medula óssea perde a capacidade de produzir células sanguíneas). “Após dois anos, o resultado surpreendeu a todos”, conta o hematologista Scheinberg. Em doze dos 27 participantes registrou-se uma redução na taxa de encurtamento dos telômeros. Ótimo. Mais do que isso, porém, em onze dos doze pacientes os telômeros haviam se alongado. “Esperávamos diminuir o encurtamento, mas vimos que, além disso, os telômeros ficaram mais longos”, diz o médico.

 Na última semana, Scheinberg e Calado foram procurados por cientistas do mundo todo interessados em conhecer mais sobre o trabalho. A possibilidade de aumentar a proteção aos telômeros semeia expectativas muito positivas na maioria das áreas médicas. Indivíduos com redução acelerada dessas estruturas, por exemplo, têm duzentas vezes mais chance de desenvolverem leucemia e risco 1,2 mil vezes maior de manifestarem tumores de cabeça e pescoço.

Em Ribeirão Preto, Calado conduz agora outra etapa da pesquisa. Doze pacientes foram recrutados – o objetivo é chegar a vinte – e serão acompanhados nos próximos dois anos. O médico quer avaliar os efeitos de uma medicação injetável, em vez da oral usada com os pacientes americanos. “Pesquisamos se a versão injetável do hormônio pode ser mais bem tolerada, reduzindo a incidência de efeitos colaterais como náuseas e comprometimento hepático que podem ocorrer com a utilização da versão oral”, afirma.

Por sua importância no intrincado quebra-cabeça do que leva à longevidade, os telômeros são hoje um dos principais alvos da pesquisa antienvelhecimento. No Centro Nacional de Investigações Oncológicas, na Espanha, trabalha um dos mais respeitados grupos de estudo sobre o tema, sob a coordenação da pesquisadora Maria Blasco. Investigações feitas em animais pela equipe demonstraram que a estrutura pode ser alongada por meio de terapia genética. Pela estratégia, o gene que determina a fabricação da telomerase – a enzima reparadora dos telômeros – é inserido nas células. “Os animais submetidos à terapia mostraram maior preservação dos telômeros ao longo do tempo, menos danos ao DNA e um atraso importante na manifestação de doenças relacionadas ao envelhecimento”, disse Maria à ISTOÉ. “A terapia que criamos permitiu que as cobaias vivessem 40% mais do que as demais.”

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Seu papel protetor ficou evidenciado ainda na pesquisa do colombiano Diego Forero, da Universidade Antonio Nariño, em Bogotá. Ele comparou o comprimento da estrutura em pessoas com e sem a doença de Alzheimer. “Nos indivíduos saudáveis, eles são mais longos, mostrando que ajudam a proteger os neurônios”, afirmou. Na Itália, a cientista Lucia Carulli, da Universidade de Modena, descobriu uma maneira simples de ajudar a preservar os telômeros: a perda de peso. Depois de analisar 42 obesos, ela concluiu que quanto maior o emagrecimento, mais longas as estruturas. “A obesidade pode acelerar o envelhecimento e um dos mecanismos que leva a isso é o encurtamento dos telômeros que ela promove”, disse a pesquisadora.

Os esforços certamente resultarão em alternativas importantes. “Estamos desenvolvendo tecnologias que tornarão possível, dentro de trinta anos, retroceder nossos relógios biológicos, dando início a um processo de rejuvescimento”, disse à ISTOÉ o cientista Aubrey de Grey, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e criador da Fundação SENS, instituição americana que busca tecnologias para prolongar o tempo de vida humano, mas com qualidade. “Queremos que as pessoas parem de morrer por doenças relacionadas à idade.”

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