A ansiedade do seu filho vai além do normal?

Revista Crescer

Assim como o estresse e o medo, ela faz parte da vida. E tem um papel importante: nos coloca em ação. Se não ficamos ansiosos pelo nascimento de um bebê, não preparamos a casa para recebê-lo. A ansiedade pode ser, ao mesmo tempo, o incômodo e a excitação que sentimos frente à aproximação de algum acontecimento importante. Depende de como a vivenciamos. “A ansiedade pode e deve ser vivida como aquela emoção gostosa de se preparar para algo esperado. Ela é como o sal: se colocada na pitada certa, vai realçar o sabor. Mas se errarmos a mão, aquela excitação prazerosa acaba se transformando em um sofrimento”, explica Rita.

É normal que seu filho fique agitado quando o aniversário se aproxima, que queira contar os dias para o começo das férias ou que tenha dificuldade para pegar no sono às vésperas de um evento importante na escola. Isso não quer dizer que ele seja uma criança ansiosa. “O comportamento ansioso exige uma predisposição. Geralmente crianças com esse perfil são aquelas que se preocupam em excesso, que querem controlar demais as situações e que exigem muito de si mesmas”, explica o psiquiatra Asbahr. Pequenos com essa predisposição tendem a ter reações exageradas com gatilhos aparentemente banais – como se desesperar porque os pais saíram para trabalhar e pensar que nunca mais vão vê-los. Mas, antes de achar que seu filho se enquadra nesse perfil, saiba que apenas cerca de 4% da população pediátrica (de 0 a 18 anos) no mundo tem predisposição genética para ansiedade crônica, segundo a neuropediatra Silvana Frizzo, do Hospital Infantil Sabará (SP).

Por isso, em vez de sair correndo atrás de um psicólogo ou de rotular seu filho como ansioso, vale voltar o olhar para si mesmo e se perguntar: será que sou eu quem não está respeitando o tempo dele? “Os pais às vezes querem que os filhos se comportem, principalmente em situações sociais, como adultos. Mas a criança tem um tempo diferente, porque ainda é muito ligada às experiências que sente no corpo, tem energia, corre”, explica a psicóloga Rita Calegari, do Hospital São Camilo (SP). Ficar sentado três horas em um restaurante, por exemplo, é uma atividade de adulto, que exige disciplina. Significa que você nunca mais vai poder comer fora até que seu filho já tenha idade suficiente para usar a faca sozinho? Claro que não. Quer dizer apenas que, possivelmente, uma hora ele vai se cansar de ficar sentado à mesa e precisará se distrair com outra atividade, como se entreter com giz de cera e massinha.

Vale lembrar que, quando os pais acompanham o ritmo da criança, eles próprios estão fazendo um exercício de empatia e fortalecendo o laço com ela. “Se relacionar com os filhos não é algo inato, precisa ser aprendido. Por isso precisamos nos dispor a entrar no mundo da criança”, alerta a psicóloga. É fato que, na correria do dia a dia, às vezes é difícil mesmo lembrar que seu filho tem um tempo diferente do seu…

Ainda assim, vale ficar alerta e observar se a ansiedade está dentro de níveis normais. Para os pais, a luz vermelha precisa acender quando a vivência ansiosa começa a atrapalhar a vida da criança, seja no rendimento escolar, nas relações com os amigos e a família, seja até mesmo no plano físico, provocando um estado de sofrimento real para o corpo. Sintomas como dor de barriga, dor de cabeça, dificuldade para dormir, fazer xixi na cama durante o sono, unhas roídas, suor frio, sensação de respiração mais curta e rápida e até vômito ou diarreia merecem toda a atenção dos pais. Assim como persistente dificuldade de concentração e falta de foco. Nesses casos, não hesite em procurar o pediatra ou marcar uma consulta com um psicólogo.

No olho do furacão

A bancária Jeane Clear Silva, 36 anos, mãe de Heitor, 5 anos, e Thomas, 4, sabe bem o que acontece quando a ansiedade sai do controle. O mais velho sempre foi extremamente ansioso, a ponto de perder o sono com pequenos eventos do dia a dia, como um almoço com seu prato preferido. “Ele se mantém em estado de alerta, corre e tropeça, pois sempre está a mil”, conta. O gatilho do episódio de ansiedade mais recente de Heitor foi a chegada da madrinha dele, que significou uma noite maldormida e muito estresse na recepção. “Ele enlouqueceu no aeroporto, batia nos vidros, corria de um lado para o outro, roeu tanto as unhas que até sangrou. Quando finalmente ele a viu, caiu num choro desesperado e dormiu”, conta Jeane.

O exemplo de Heitor deixa claro o que talvez seja o principal prejuízo causado pela ansiedade: nos roubar o presente. “Esse sentimento traz uma obsessão do tempo, o futuro e o controle das coisas, que pode minar a atenção e a vontade para o que se quer viver agora”, explica Rita. E como aconteceu com o menino, às vezes a espera é vivida de uma forma tão angustiante, ou produz expectativas tão altas, que, quando a situação finalmente se concretiza, só sobra frustração ou exaustão.

Jeane procurou a ajuda de uma psicóloga e, aos poucos, tem notado resultados. Os episódios de xixi na cama diminuíram, mas ele ainda não consegue ficar parado sem mexer as pernas e não deixou de roer as unhas. “Evitamos antecipar acontecimentos que despertem sua atenção. Avisamos somente um pouco antes de acontecer”, conta a mãe.

Nos casos em que é preciso fazer um acompanhamento médico, raramente é preciso intervir com medicamentos. O mais comum é realizar o tratamento da criança – ou da família – por meio de terapia cognitivo comportamental, a única que tem resultados comprovados por estudos. A ideia é fortalecer a criança para que, aos poucos, ela responda de forma diferente às situações que a deixam ansiosa. Se é dormir fora de casa, o ideal é que ela seja exposta a essa situação aos poucos. Primeiro, durante um período mais curto, na casa de alguém da família. Depois, durante um período mais longo. E assim vai. É um processo demorado, por ser gradativo, mas funciona.

Para a pedagoga Anita Lima Rocha, 40, mãe de Vitor, 9 anos, e Clara, 7, a solução foi outra: aulas de ioga. Sempre atenta para observar comportamentos ansiosos nos próprios alunos, ela acabou por identificá-los no filho mais velho, no período de alfabetização. “Ele começou a roer unhas, pensando no que teria para fazer! Isso logo chamou minha atenção”, conta. Com três meses praticando ioga, Anita já foi capaz de identificar mudanças no comportamento do filho, que por meio da respiração tem conseguido controlar a ansiedade. A própria mãe participou de aulas e tem feito algumas práticas de respiração. “Eu também tenho olhado para dentro e buscado traços de ansiedade em minha vida. Estou tentando fazer as atividades com mais tranquilidade e identificando os momentos em que posso estar passando ansiedade para meus filhos”, diz.

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